26 de abr. de 2014

Contação de histórias - uma linguagem em desenvolvimento na contemporaneidade

Presenciamos, querendo ou não, a emersão de um novo gênero em Artes Cênicas: a Contação de Histórias.


O ator Sotigui Kouyatê, reconhecido internacionalmente por seus trabalhos junto a Peter Brook, afirma que em seu grupo étnico, no Burkina Faso, existe o costume de, quando na chegada de um forasteiro, as pessoas reunirem-se ao redor dele, para que este conte sua história e sobre o lugar de onde veio e pelos quais passou.



É uma maneira de conhecer o mundo através da experiência de uma outra pessoa, através de seus olhos, através de seus sentimentos ao contar a história.


Aliás, na língua de origem de Sotigui, não há diferenciação filosófico-etimológica entre Teatro e Contação de histórias, essas experiências significando realmente, em português, "conhecer o mundo".


Se voltarmos ao Ocidente, vamos lembrar do gregos dizendo "conhece a ti mesmo". Não podemos esquecer que seu teatro pedagógico é a base para muitas outras teorias de Teatro no ocidente. Mas, com relação à Grécia, é uma outra beleza que se traz aqui: a palavra Teatro.


Esta é derivada de Theatron, "lugar de onde se vê". Logo, percebe-se: a dimensão da platéia já era encarada como essencial ao fenômeno cênico. Claro, posto que os elementos colocados em cena, somente o são a fim de serem mostrados à platéia (independente de serem objetos simbólicos ou de cunho realista). É a ela que interessa o visível do ato cênico. E a Contação de histórias tem muito a ver com isso.


Quebrando os limites da quarta parede, a Contação de histórias vem a se encontrar com o Teatro que conhecemos em uma característica essencial aos dois: o compartilhamento de experiências.


Mesmo que não haja elementos cênicos, que a voz e o corpo sejam os pilares da performance, existe a criação de um espaço cênico subjetivo, aberto às realizações cognitivas de cada indivíduo que forma o ser “platéia”.
E se a quarta parede aqui é citada, não o é em vão: o seu rompimento é afim ao Zeitgeist contemporâneo: o intertexto, o interdiscurso das linguagens artísticas.


Chegamos a um ponto em que, não só em Artes Cênicas, mas também em Artes visuais, por exemplo, os gêneros se cruzam, contribuindo-se mutuamente. Estes cruzamentos permitem uma característica interessante: os gêneros formam híbridos descolantes, ou seja, podem tornar a ser o que eram antes e tangenciarem outros gêneros.


Logo, a transposição da quarta parede de entre atuador (ator e/ou contador) e platéia para além desta, cria um campo em que ambos os papéis aqui citados se interpolem em seus lugares, ora público tornando-se líderes do discurso, ora este devolvendo esse lugar ao atuador.


Porém, subsiste uma questão: tornar o público líder de um processo artístico não é desautorizar a criação individual do atuador? Entramos no ponto mais belo dessa relação.


Não nos enganemos: um espectador, ao se colocar nessa posição, quer, espera, expecta, algo que o alimente de algum modo, mesmo que não saiba que texto e direcionamento cênico o aguardam. O contador de histórias conhece esse fenômeno e vai se utilizar dos quantos fios estiverem disponíveis à essa realização.


Daí a necessidade, e a abertura possível, de se transformar textos, sejam mitos ou literários, a uma poética atual, de acesso franco ao espectador. Similar à pedagogia teatral bretchiana. Se o atuador o faz é por sentir essencial a criação de diálogos, não só entre ele e o espectador, mas entre este e a história, tornando sua figura um meio cênico, assim como um aparato cenográfico o é.


Um ponto importante a se destacar consiste em que criar espaço comum ao espectador e o texto não é de forma alguma transformar a história em algo digerível, digerido, destituindo-a de jogos polissêmicos. Criar espaço comum é considerar o público como capaz de se tornar sujeito no espaço cênico, oferecendo-lhe subsídios, mesmo que apenas de natureza cognitiva, para interferir no apresentado a ele.


A beleza do espaço dialógico está em o próprio indivíduo espectador digerir com seu suco gástrico/cognitivo a história que se medeia a ele. O papel do contador é o de simplesmente criar diálogo, de ser um mediador. Sem ele, o público sai do espaço da história, da contação, o mesmo que entrou. Será mesmo?


Em uma entrevista, Clarice Lispector, quando perguntada sobre o que esperava mudar com os seus textos, disse: "Nada. Não acredito que a Literatura possa mudar nada".


Nada. A história, a Contação de histórias, não muda nada.


Acrescenta. A Contação de histórias (leia-se aqui todos os gêneros cênicos e de outras artes) acrescenta sentidos, percepção, criação.


Principalmente na contemporaneidade, quando a sociedade ocidental oferece ao indivíduo um número ínfimo - contável nos dedos de uma mão, talvez - de ritos de passagem.


Contação de histórias é um rito de passagem. É um lugar, físico e afetivo, seguro, em que o ser é tomado por experiências outras, as quais osmoseifica como suas.


E não era o rito de passagem para os povos antigos um processo de educação? De natureza étnica, sim (como se a ocidental não o fosse); mas de educação, prioritariamente.


Educação étnica, educação estética, educação ética.


Para cada rito, uma história. Cada história uma explicação do universo. Como necessitamos conhecer o mundo a nossa volta ainda nos nossos dias...


Como ainda necessitamos, e não só as crianças, mas os adultos acima de tudo, de reconhecer nas histórias de outros povos espelhos de nós mesmos, independente das cores, deuses e construções que compõem nossas vidas.


Como precisamos perceber a beleza do outro: a beleza da pele, a beleza da oração, a beleza de seus templos.


Como precisamos nos perceber em uma dimensão planetária.



As histórias têm esse poder: transformar diferenças em tolerâncias.


Contudo, há de se alertar: a contação de histórias, ou qualquer outro gênero artístico, enquanto instrumento pedagógico não o é assim para a massificação, mas para a educação do indivíduo.


Esteja direcionada a adultos ou crianças, não se presta a apaziguar os ânimos, ou para criar estados de alegria acéfala, mas para instigar estados de apreciação estética, como os sugeridos por Jauss: poiesis, aisthesis e katharsis.


Sugere-se, no entanto, que esta trindade receptiva seja imagina não de forma linear ou triangular, mas como um círculo, uma espiral, posto que, após katharsis, inexoravelmente poiesis retoma seu lugar reorganizatório, resultado da experiência fruída pelo espectador e, como a própria significação etimológica sugere, constituindo-se como o processo de criação, o indivíduo tomado pelo gênio (re)criativo da obra apresentada a ele, o fruidor que se torna co-autor da história.


Retomamos, finalmente, a idéia anterior: o espectador, ao se colocar nesta posição espera, expecta, por algo que o alimente. Expecta pelo fenômeno, isto não para a pedagogização de seus sentidos, mas para a educação destes. E nesta educação, o educador é ele mesmo - o indivíduo se torna sujeito de sua trajetória educativa.



Nesse espírito, a linguagem da contação de histórias se insere na contemporaneidade como um espaço interdisciplinar, ou até mesmo transdisciplinar, em que as experiências trazidas por outras histórias vão se mergulhar com as dos próprios contadores, com a dos próprios participantes-ouvintes, abrindo campos largos de percepção, emergindo uma proposta de mediação cênica com o público, seja essa mediação/participação introjetada ou extrínseca, objetiva ou subjetiva.

História pra quê?


"Não há ninguém tão pobre que não deixe algo atrás de si."

Pascal


Walter Benjamin, em "O narrador" previa a extinção de um sujeito que vem, desde que o ser humano se constituiu como ser de linguagem, tecendo o papel de guardião da memória dos povos: o contador de histórias.

Chegamos ao século XXI e já podemos constatar uma grande lição: ainda bem, Benjamin falou em sua previsão.


Ainda assim, vamos refletir um pouco: na sociedade contemporânea, repleta de elementos que seduzem pelo seu apelo visual, a contação de histórias vem se propor a ser uma linguagem em que se estimula um outro sentido por vezes deixado de lado: a audição.

Porém, não se trata de apenas escutar as palavras, mas de ouvi-las, ou seja, deixá-las nos afetar.

Já foi e continua sendo dito o quanto o excesso do visual, sem a educação deste sentido, produz um embotamento do senso crítico com relação a esse tipo de imagem.

A contação de histórias vem exatamente na contramão disto: o contato entre o contador e seu público é o tempo em que ambos exercitam o músculo da imaginação, provendo-se de construções individuais acerca das palavras que alcançam o seu imaginário.

O visual é bidimensional. Enquanto vejo algo, o que está atrás de um objeto não pode ser visto por inteiro, a não ser que eu me aproxime dele. Ainda que ele seja tridimensional, a visão não o é. Para ver cada lado, é necessário que eu me posicione de acordo com o ponto de vista que eu queira ter do objeto.

O ouvir é distinto: ele é multidimensional. Ao ouvir palavras, estas se transformam em imagens que, no cérebro, transformar-se-ão em terrenos, pelos quais eu posso voar, atravessar paredes, fazendo com que a percepção recaia sobre o todo que constitui a cena narrada.

Ao ouvir, a palavra acessa a memória; a memória emerge experiências vividas; estas e seus valores adjetivos são agregados à palavra ouvida; a compreensão do que se ouve acontece, mas não é inócua: é carregada de sentidos, de conexões cogntitivo-afetivas, as quais trarão um sabor especial àquele momento de encontro trigonal – contador-história-ouvintes.

Ainda, ao ouvir histórias de uma sociedade distinta da que se vive, acontece o encontro entre modos múltiplos de viver a existência e de construção de mundos. Muitas vezes, ao nos deparamos com as diferenças, encontramos mais semelhanças do que nossos (pre)conceitos suporiam.

Memória. Esta vem do grego anamnesis, e seu significado estava além da acepção atual, o recordar – e sim trazer ao presente.

Portanto, o espectador já não é mais assim: ele é participante, pois que há uma história sendo contada por ele mesmo. A sua construção íntima, também, carrega não só as suas experiências, mas agrega valores arquetípicos, vindos de tempos e espaços imemoriais. Como se toda a história da humanidade contivesse-se em um único sujeito.

Portanto, chegamos a uma conclusão: a Contação de Histórias é uma Arte repleta de conceitos de Educação.


Sendo assim, em uma proposta de Educação em que as barreiras da intolerância se rompam e as das hierarquias de saberes sejam relativizadas, a Contação de histórias se estabelece como arte em que, citando Morin, os sete saberes necessários à educação do futuro se fazem presentes: o conhecimento, o conhecimento permanente, a identidade humana, a compreensão humana, a incerteza, a condição planetária e a antropo-ética. Se analisamos qualquer história perceberemos estas dimensões.


Entremear Contação de histórias e Educação é obter mais uma ferramenta pedagógica e artística, a fim de proporcionar experiências estéticas que integrem os sentidos do indivíduo. É oferecer-lhe mais um instrumento de apreciação e crítica do mundo.

Você já ouviu uma história hoje?


Até a proxima história...

Ensaio na Revista de Arte Clock51

A revista Clock51 é uma revista de arte para os países de língua portuguesa.

A sua edição de março foi um especial sobre a nudez e a sensualidade e a sensorialidade.

E eu estava junto!

Algumas das imagens. Sem nenhuma vergonha e sem nenhum pudor.

Porque nossos corpos são nossas histórias!

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Fotografia: Augustinho Segundo
Produção: André Alcantara
Produção CLOCK51: Felipe Santos






Depois de muito tempo sem atualizar...

Aconteceram muitas coisas!

Participação no evento SER NEGRA, na IFB, em Brasília, um evento lindíssimo e forte sobre cultura negra, agência feminina e tudo de correlato possível!

Espetáculos O menino que brincava de ser e Cabeça de Vento, com a Pandorga Cia de Teatro!

Espetáculo O besouro e a rosa, com a Okearô Teatro!

E outras coisitas.

E vamos caminhando...

23 de jul. de 2013

Ganesha

Prezadxs!!!

Finalmente consegui o vídeo da contação "Ganesha", apresentada no programa ABZ do Ziraldo, em 2012.

A data da exibição não poderia ter sido mais especial: 16 de dezembro - aniversário do Apolo. Assistimos agarradinhos com a Agnes aqui em casa.

Jaya Ganesh!!!
OM...

Namaskar a todos! 

23 de mai. de 2013

Uma mulher decidida.

Artigo-crítica sobre o espetáculo Monologue, baseado no texto homônimo de Simone de Beauvoir, com direção da Marília Gurgel.

Escrito por Dâmaris Grun, disponível no site Questão de Crítica.

"Quando me deparo com montagens teatrais dentro do âmbito universitário, sempre destaco a importância, e o prazer, de ver produções em que o estudante de teatro se permite mais correr riscos do que se deixar seduzir pela ansiedade de fazer uma montagem como um produto acabado, bem feito e sem arestas. Considero de extrema valia trabalhos em que os jovens artistas se permitem expor a dúvida, as perguntas que se fazem durante o processo de produção de uma obra. Esta é uma premissa vital para a discussão do teatro que se faz na atualidade, pois a relação de experimentação e risco que algumas experiências acadêmicas proporcionam abre espaço para um teatro que nos impulsiona à reflexão, a outros modos de fruição como espectador. Por esse viés, volto meus olhos para os recentes trabalhos da XII Mostra de Teatro da UFRJ em que me deparo com uma gama muito diversificada de propostas cênicas, que vão desde trabalhos solos à encenação de um musical do porte de Os miseráveis,por exemplo.
Há dentro desse universo um número expressivo de processos colaborativos, o que pode detectar uma vocação desses alunos por trabalhos que prezam pelo envolvimento de várias vozes dentro de um processo artístico, por mais que esse experimento seja eminentemente uma etapa importante da formação de um jovem diretor, que é a conclusão do curso de direção. Há, por parte desses alunos – e isso me pareceu mais evidente ao participar de forma intensiva dessa edição da Mostra – uma vontade de pesquisar seus próprios caminhos e subjetividades artísticas, de buscar uma criação autoral e singular. Parece-me que eles são estimulados por um corpo docente que “dá corda” a essas práticas propositivas e instigadas pela pesquisa cênica. Isso se dá também pelo caráter agregador que a própria natureza da Mostra promove ao misturar diversas áreas da Escola de Comunicação e Artes da UFRJ (ECO). Soma-se a isso a formação de um público espontâneo que ela conquistou ao longo de suas doze edições.
Após essa introdução sobre a Mostra e seu caráter plural volto meus olhos para uma experiência que me chamou a atenção por se tratar de um monólogo, tarefa nada fácil no campo teatral, já que requer um esforço muito incisivo no trabalho de ator. Parece-me que essa escolha para uma prática de montagem repousa na vontade de dirigir o ator a partir de um texto não dramatúrgico. É curioso vermos trabalhos dessa natureza numa prática de montagem, pois a ideia de uma montagem parece trazer consigo a determinação de ser um trabalho com grande elenco, e um trabalho que traz somente um ator em cena é um risco bastante grande e desafiador para os artistas envolvidos, principalmente para a direção, que deixa sua marca muito forte no tipo de atuação exposta em cena.
Assim, a prática de montagem Monologue, da aluna-diretora Marília Gurgel, pode ser inserida dentro desse contexto. Retirado do livro A mulher desiludida, de Simone de Beauvoir, lançado em 1967, Monologue (a tradução para o português é Monólogo, mas a diretora optou por manter o original francês) é um dos três contos que trazem em seu bojo as questões da mulher que se emancipava nos anos 60 (e que teve em Simone um emblemático farol político e literário das causas feministas). As três narrativas que compõem A mulher desiludida mostram o mundo de diferentes personagens femininas, de meia idade, que se vêem diante da solidão, do fracasso, das questões amorosas e existenciais diante de um mundo ainda dominado pela lógica masculina. Monologue é a segunda parte do livro, em cujo enredo uma mulher divaga sobre seus casamentos fracassados, a conturbada relação com a sua mãe e a morte de sua filha por suicídio, dor que coloca essa mulher em um estado de aparente delírio, evidenciando uma revolta com o mundo “fora” e com sua própria existência. É importante destacar que a aluna-diretora já havia se aventurado na temática feminina em peças como As lágrimas amargas (a partir de As lágrimas amargas de Petra Von Kant), de Rainer Werner Fassbinder e Lisístrata, de Aristófanes, ambas apresentadas dentro da universidade em 2011 e 2012 respectivamente.
O texto de Simone de Beauvoir contém uma teatralidade latente ao apresentar uma estrutura narrativa em primeira pessoa, narrativa que imediatamente aciona o ouvido do leitor para uma relação ativa de escuta. Carregada de imagens sonoras, com uma pontuação espaçada, a fala constante da personagem (que se chama Murielle, mas na versão teatral de Marília Gurgel recebe o nome de Martha) exige uma interlocução atenta e presencial, como se cada espectador fosse o cúmplice de seu discurso intenso. O fluxo intenso de pensamento que sai da boca daquela mulher sozinha, que aparentemente fala para o “nada”, presentifica o “outro” que ouve aquele vômito existencial e verborrágico. As frases de Monologue são extensas, com pouquíssimas vírgulas e pontos finais (exclamações e interrogações são quase inexistentes) o que implica menos respiros dentro do discurso do que blocos de fala extensos e que exaurem o leitor. Por essas questões, acredito que a narrativa opera um chamado à fala, uma fala que determinará os lugares onde vírgulas, pontos e pausas poderão ser colocados, pensando naquele alguém para quem Murielle (Martha) irá se dirigir. Assim, o espetáculo de Marília Gurgel opta por um purismo no uso do texto, transpondo as linhas de Monologue de forma que podemos ver a literatura como dramaturgia de uma cena com forte apelo expressivo do corpo da atriz e a real interlocução dela com o espectador na cena.
O trabalho da atriz Tatiana Henrique se dá por uma vertente bastante corporal, na medida em que a intérprete busca vivificar as sensações através de movimentos e marcações bem definidas, o que resulta num corpo desperto e que busca dar uma identidade visual com as palavras. Toda essa movimentação bem delimitada evidencia um gesto apurado da direção, porém não impediu que a atuação caísse, em certos momentos, numa marcada representação, o que invariavelmente esvazia a densidade emotiva que a narrativa contém, principalmente em pontos em que a autora expõe a extrema humanidade da personagem. Fica evidente uma marcada construção da ideia que se tem da personagem e de como aqueles estados que a atravessam devem ser expostos para o espectador de forma física. Essa extrema preocupação – legítima, pois se trata aqui de um trabalho na busca de sua singularidade – em dar conta dos múltiplos estados emotivos de Martha, me parece conduzir a atuação menos numa busca verdadeira e espontânea dos sentimentos diante do público, no presente da ação, e mais o desejo de evidenciar a árdua construção de um personagem.
Mas dentro dessa exposição da figura construída pela atriz, é visível a preocupação da direção para que o trabalho não se feche, alienando o público ali presente. A relação com o espectador é direta, intensa e necessária para a atriz forjar o seu interlocutor na plateia atenta, esse interlocutor onipresente das memórias e dilemas de Martha. A opção por uma não frontalidade da relação entre ator e espectador nesse trabalho, o que vemos mais usualmente em monólogos, evidencia o foco na representação engendrada por Tatiana Henrique, que arduamente mantém a intensidade do trabalho e a forma como se dirige a cada espectador, em cada uma das quatro arquibancadas.
A cenografia (Nathália Borges), iluminação (Letícia Bianchi) e figurino (Aline Lima) dialogam ao criar um espaço de um não lugar, um ambiente em que a decodificação não se dá de imediato, evidenciando um espaço asséptico onde o foco do olhar é para os movimentos e a fala incessante da personagem. As arquibancadas estão dispostas em arena, de forma que a atriz se encontra dentro do quadrante que proporciona um espaço cênico de muita proximidade com o público, com o olhar do espectador. O chão é coberto por uma lona branca, numa das laterais do espaço da cena há uma espécie de pufe, de um vermelho intenso, que possibilita um uso dinâmico já que a atriz pode emaranhar-se nele, fazer seu corpo desaparecer nele, desfazê-lo no espaço, recolocá-lo na lateral intacto. Há no centro do espaço um lustre feito de tiras de silicone com alguns fios de lã vermelha.
Essa conjunção entre cenografia, iluminação e figurino forma um ambiente claro, solar, de onde emana um duplo sentido: pode ser o lar daquela mulher, ou mesmo um hospital, até uma clínica psiquiátrica, pela assepsia já mencionada. Essa segunda sugestão também é evidenciada pelo figurino ainda de forma mais marcada. Os chinelos de tecido atoalhado possibilitam certa resistência ao andar da atriz e uma tensão de que o corpo tombe a sua frente. Mas o que denota maior referência à possibilidade de que essa mulher esteja num quarto de hospital é o que encobre o seu vestido azul, uma espécie de avental que remete imediatamente a uma camisa de força. Esses elementos dão a sensação dessa mulher estar em tratamento clínico, como se, internada sob o olhar médico e a partir desse estado de reclusão, proferisse um discurso delirante (que passa o passado a limpo) a si própria. Sua solidão é partilhada com o público que é seu cúmplice, seja no delírio ou na necessidade de falar ao outro, que deseja ouvir o coração estraçalhado pela dor de uma perda que sofreu.
Considero Monologue uma experiência que materializa o desejo de uma diretora de levantar questões, de experimentar seus próprios caminhos e anseios artísticos, de falar sobre si ao buscar em Simone de Beauvoir uma interlocução, refletindo na cena aquilo que a personagem procura no espectador diante de si. Antes de serem mulheres desiludidas, Marília, Tatiana e Martha são mulheres que falam por si, que se apresentam sem máscaras, que mostram a que vieram. São mulheres decididas.
Dâmaris Grün é atriz formada em Teoria do Teatro pela Unirio e faz a coordenação geral do Prêmio Yan Michalski para o teatro em Formação."

11 de mar. de 2013

Eu monologo tu monologas nós monologamos

Prezadxs!

Esse fim de semana foi de estreia. Após 5 meses de ensaios nasceu Monologue, trabalho com a direção de Marília Gurgel. Nos conhecemos quando entramos para a Escola de Teatro Martins Pena, em 2008. 





Agora, em 2012, nos reencontramos. Foi um momento muito importante pra mim. Eu estava realmente em uma "crise" como atriz, pensando pensando e discutindo comigo mesma, chegando próximo à conclusão: vou me afastar do Teatro. 

Foi aí que recebi um email da Marília. Entre outras coisas dizia: "Assim que li vi logo você em cena. Como está sua vida? Você se interessa em embarcar nessa comigo?"

Gente... Simone de Beauvoir! A história de uma mulher! Claro que sim!

Em dúvida ainda, incerta ainda, mas eu fui. Lembrei da Fernandona dizendo, como conselho para atores, algo como "Desista! Mas se o teatro não desistir de você, insista!" (é bem provável que ela não tenha falado assim, mas foi assim que eu guardei no coração!)

Marília operou em mim um resgate. Sem exagero. Eu tinha acabado de receber uma crítica de um outro trabalho que havia feito que dizia algo como "cumprir um desafio além da sua capacidade". Era um misto de "não sei vou" com "tenho que ir". Fui.




Estou indo. Monologue estreou esse fim de semana. Dia 8 de março, dia internacional da mulher! Ao invés de flores e afagos, a memória de uma mulher sozinha, com tiradas geniais, sarcásticas, rancorosas, sofridas... Um ser humano e tanto. Um presente de Beauvoir. Um presente da Marília.

Toda a equipe é um presente. Sete mulheres. As seis cuidando de mim  de uma maneira linda. Do primeiro ao último dia. Letícia (iluminação), Laryssa (preparação corporal), Aline (figurino), Nathalia (cenografia), Duda (produção): obrigada é pouco.

É lindo demais me ver naquela arena, jogada aos leões, sem quarta parede, olhando no olho, viva viva viva viva viva!!!!! 

Minhas deusas, meus deuses! Eu sou atriz, caramba!

E nunca mais me deixem desistir!

Agora é só insistir.

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Aproveito pra escrever aqui algumas palavras e impressões de pessoas que foram assistir. A próxima apresentação será no dia 13 de abril, no Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista. Gratuito também! 

Vem Beauvoir conosco!


Marcos Saussey: "Dica de programa de altíssimo nível para o próximo final de semana. Monologue de Simone de Beauvoir na super interpretação de Tatiana Henrique. É definitivamente uma SUPER interpretação! A mulher é um Monstro em cena. Super recomendo!" - "O texto apesar de ser denso, tenso e muuuito intenso é passado ao público de uma forma ímpar! Suas idas e vindas do cômico ao trágico em fração de segundos é uma LOUCURA. O espetáculo é tão plural, que desejo sinceramente que muitas pessoas o assistam. Seguirei recomendando para amigos que certamente o indicarão para amigos e por aí vai... Os meninos também são seus fãs de carteirinha.Bjs, sucesso sempre e muita prosperidade!!!"


João Bosco Gomes: "Ao lado do Pinel - Surto psicótico “monologa”

A mulher desiludida, no Teatro de Arena da sala Vianninha, silenciando pequena mas distinta platéia, atenta ao elogia da locura, de Simone de Beauvoir, onde a atriz Tatiana Henrique, incorpora uma personagem paranóica, alucinada, às vezes lúcida, às vezes reacionária, questionadora da realidade social hipócrita, envolvendo a todos com seu drama delirante. No palco de arena, a cenografia de Nathália Borges ( apenas um “pufe”), figurino de Aline Lima e iluminação de Letícia Bianchi, remete para um apartamento vazio ou um solitário quatro de manicômio. --“Um trabalho de equipe”, conforme palavras de agradecimento ao final da apresentação, da Jovem diretora Marília Gurgel, na “prova de fogo” para sua formatura universitária, atuando com desembaraço como técnica estreante em final de campeonato."


Andréa Santiago: "amei. saí logo, mas com vontade de te dar um beijo de parabéns e de lindo. a vc e a marília e à equipe toda. vida amor arte, sim! beijos e MERDA !!"










Pra conhecer mais... Curriculum

http://mundoazulth.blogspot.com.br/2012/10/curriculum_3.html